Depoimento #Bianca
- Mariana Novaes
- 5 de out. de 2016
- 3 min de leitura
Este tocante depoimento é da Bianca, que me deu autorização para publicá-lo. O que mais me chamou a atenção foi o otimismo presente em seu texto, um otimismo de quem tem esperança, força e vontade de seguir lutando!
Segue o depoimento:
"Minha experiência com a fobia social foi sempre muito debilitante. Ela me acompanha desde que eu me lembro, quase que durante a vida toda. Os primeiros sintomas foram manifestados já na infância (por volta dos 6 anos, que é quando me recordo) e não me abandonaram desde então. No meu caso, acredito que a causa tenha sido genética, já que minha mãe também possui o transtorno.
Eu sempre fui uma criança muito brincalhona, adorava fazer palhaçadas e brincar com todos os meus amigos; mas, quando precisava ser exposta, a ansiedade já se manifestava. Fora de casa, eu era muito retraída, tinha medo de conversar e mostrar quem eu realmente era, morria de medo de ser julgada, mas era inconsciente. Eu ficava irreconhecível. Talvez a minha preocupação excessiva com minha aparência desde essa mesma idade tenha contribuído muito para a piora do trastorno, já que eu não conseguia nem me olhar no espelho sem me sentir mal, imagina estar exposta a críticas. Não, não conseguia pensar na possibilidade.
Quando cresci, era obrigada a enfrentar situações mais desafiadoras (de certa forma, quando se é uma criança com fobia social, você ainda é protegido pelos seus pais, mesmo que as situações estejam presentes), o que agravou minha fobia. Situações normais que todo adolescente vive para mim era utopia: primeiro beijo, ir à festas, ter amigos e sair com eles, ir na casa de colegas e conversar sobre a vida, ter histórias para contar, viajar, se divertir, dançar. Além de todo o peso que eu tinha que carregar por não conseguir ter uma vida normal como os outros, ainda tinha que ouvir os julgamentos por ser "anti-social" - era assim que todos denominavam. Mas, aquilo que para os outros era vergonha e isolamento, para mim era medo, era dor, era ansiedade. Era ver minha vida passar diante dos meus olhos e eu não fazer nada para mudar. Era achar que eu realmente era estranha e que era diferente de todos. Era ansiedade, dor no peito, tremedeira, voz trêmula e cansaço no fim do dia. Era não me aceitar, não suportar não ter amigos para ao menos demonstrar o que eu sentia. Era sentir que todos viviam enquanto eu procrastinava e apenas assistia toda a felicidade que residia no mundo, mas não em mim. Porque eu era excluída, era tida como a "quietinha", "a estranha que não tem amigos". E eu acreditava. Acreditava porque achava que isso fazia parte de mim. Não achava que isso teria um nome ou que fosse uma doença. Acreditava que estava predestinada a ser assim, porque eu era assim. Acreditava que todas as vontades que eu almejava, todos as risadas que eu queria dar, todos os amigos que eu sonhava ter, todas as viagens loucas que eu pretendia realizar, todas as festas que eu queria ir, todos os lugares que eu queria visitar, tudo isso era fruto da minha idealização inalcançável. Talvez concretizasse em uma futuro distante - quem sabe com o tempo eu não melhorasse? -, mas eu não fazia ideia do problema que eu carregava. Não sabia que eu teria que me esforçar para ter uma melhora, não tinha ideia que a imagem que eu passava para as pessoas não era eu.
Até que aos meus 14 anos eu descobri. "Fobia social". Na Wikipédia. Cada frase, cada trecho, cada palavra explicava exatamente o que eu sentia. Como eu não soube disso antes?! A sensação foi de alívio. Finalmente eu encontrei a resposta que eu nem achava que pudesse existir. Tudo fez sentido para mim.
Mas quando descobri foi tarde. A depressão tomou conta de mim. Ainda não tenho dúvidas que a fobia tenha tido papel importantíssimo para que ela aparecesse. Foi duro, as duas juntas seria impossível. Mas eu venci. Logo após, adquiri sintomas ainda mais fortes de ansiedade e não apenas em situações de exposição. Era mais um transtorno de ansiedade para me paralisar. Mas eu não desisti. Estou aqui, tentando a cada dia mais. Não é fácil, não tem sido fácil; as crises são frequentes. Mas sei que posso me livrar desse demônio que habita em mim e ter uma vida normal. E não desisto. Torço muito para que todos que também possuem melhorem cada dia mais."
Obrigada pelo depoimento Bianca!
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